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Eu e mim mesmo
 

 

 

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Maria Luiza Cardinale Baptista (Mtb 6199/25/71)

Editor
Lucas Colombo

Webmaster
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Assistente de Comunicação
e Planejamento
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Usina Pazza é uma publicação da Pazza Comunicazione, destinada
à informação e análise
de temas relacionados
à comunicação e cultura
do Brasil e do mundo.

Os textos são de inteira responsabilidade
de seus autores. 

 
Eu e mim mesmo
 
Uma conversa entre Luciano e Alabarse
Luciano Alabarse

 

 
A entrevista

     L - Como começar?
     A - Pelo começo, é sempre o mais indicado. Pela sensação presente, pelos acontecimentos circundantes, pelas preocupações, ocupações e tarefas que estejam aparecendo. Sempre é importante começar: projetos, trabalhos, considerações, reclamações. O que começa bem anda bem e, geralmente, chega a bom termo.

     L - Então, por literatura: o que você tem lido ultimamente?
     A - Nessas semanas de Feira do Livro, me encomendaram uma leitura de "O Homem e a Mancha", do Caio Fernando Abreu. Caio é um dos meus mais fortes amigos. Digo é, no presente do indicativo, porque continua sendo, apesar de que, em fevereiro de 2006, teremos já dez anos de sua morte. Então, voltei a esse texto dele, que Caio escreveu a pedido do Carlos Moreno (o ator do Bom Bril, lembram?). É uma visão do Caio sobre o célebre "Dom Quixote", de Cervantes. Este ano, em que todo o mundo comemora os 450 anos da primeira edição, vem a calhar a leitura. É muito bonito e absolutamente poético. Trabalhei pela primeira vez com Marcelo Adams, e foi muito prazeroso. Marcelo é um jovem ator de muito talento e segurou muito bem a leitura. Enfim, foram dias de Caio Fernando Abreu e Miguel de Cervantes na minha vida. No meio disso, li dois livros recém lançados: "Complô Contra a América", do Philip Roth, e "As Intermitências da Morte", do Saramago. Gostei de ambos, tão distintos entre si, e tão bem escritos, cada um na sua linguagem. Tenho lido muito, nessa entressafra cênica. Agora mesmo, já comecei o "Quatro Negros", do meu amigo Luís Augusto Fischer. Enfim, não imagino minha vida sem um bom livro por perto.

     L - E a música? Você é conhecido por ser um compulsivo ouvinte musical.
     A - É verdade. Desde pequeno, desde sempre, tenho ouvido música. Ouvinte mesmo, porque não tenho nenhum talento para instrumentista ou cantor. É um prazer como poucos. Um homem sem ouvido musical é menos interessante. A música acompanha
a história dos povos, a formação dos comportamentos, a idéia mesma do mundo
em que vivemos.

     L - Alguém te chama atenção hoje no meio musical?
     A - Estou sempre procurando ouvir o que não conheço. Ainda hoje, não me canso de ouvir discos. Seja dos grandes e consagrados medalhões, seja daqueles que estão nos oferecendo seus primeiros trabalhos. A maior surpresa dos últimos meses, paradoxalmente, me veio do cinema. Estava eu vendo, em casa, o DVD de um filme francês ("Lado Selvagem"), quando a primeira cena tomou de assalto a minha vida. Nela, um homenzinho jovem e feio cantava com voz de anjo, para uma platéia bizarra, uma música tristíssima. O cantor, vim a saber depois, se chamava Anthony Highrty. É inglês, vive em Nova Iorque e tem um grupo chamado Anthony and the Johnsons. Lançou já quatro discos, nenhum disponível no Brasil. É simplesmente maravilhoso. Ele é escancaradamente gay, um ícone dessa estética. E tem uma melancolia indizível, contraste absoluto com seu visual debochado e iconoclasta. São discos muito belos, sofisticados e tristes. Recomendação absoluta.

     L - E que mais?
     A - Ah, estou sempre ouvindo música portuguesa, por exemplo. Adoro a voz de Cristina Branco, uma jovem cantora de fados. Seu último disco foi também lançado aqui. Ela canta uma versão muito legal de Joni Mitchell, um dos meus ídolos mais cultivados. Só isso já catapultou o disco para permanecer longo tempo no meu aparelho. Ouvi o disco novo do Seu Jorge, achei bem bacana. O de Maria Rita, infinitamente superior ao primeiro (que eu detestei, diga-se). Coloquei o último Lulu Santos e achei insuportável. Não consegui ouvir até o fim. Enfim, esse time anda fazendo a minha trilha sonora dos últimos tempos.

     L - E fora as circunstâncias, quem você sempre volta a ouvir?
     A - Ah, muita gente. A já citada Joni Mitchell. Sempre. Seus discos são bálsamos diante de tanta mediocridade pop. Nina Simone, adoro. Maria Bethânia, Caetano - apesar de que achei muito morno o seu disco em inglês. Nem parecia o velho e bom Caetano de sempre. Mas ele é fantástico, uma personalidade extraordinária de artista e compositor. Sempre presto muita atenção na sua obra e nas suas palavras. Tem muito mais gente que me encanta, é claro, e que conheço bem: Adriana Calcanhotto, por exemplo. Está cada dia melhor a minha amiga. Wisnik, Tom Zé, Tatit, adoro essa turma. São os mais bacanas, na minha opinião.

     L - E teatro?
     A - Aí é mais complicado. Porque não consigo ser só público. Sou mais crítico, mais exigente. Não gosto de peças comerciais que me lembrem a linguagem da televisão. Teatro é outra coisa, mais artesanal ou mais sofisticado tecnologicamente, mas é outra coisa. Não é cinema nem televisão. E quando quer parecer uma ou outra coisa é muito aborrecido. Hoje em dia, a confusão é grande. E os resultados cênicos estão muito discutíveis.

     L - Você fala de Porto Alegre em especial?
     A - Não só, de maneira nenhuma. Mas aqui também aparecem esses sintomas, essas questões, esses problemas. Mesmo assim, existem pessoas muito legais em Porto Alegre suando a camiseta. Roberto Oliveira, por exemplo, e seu Depósito de Teatro. É comovente tudo o que está fazendo. Marcelo Adams e Margarita Peixoto estão fazendo um ótimo trabalho. O grupo Caixa Preta fez um "Hamlet Sincrético" muito bom. Como em qualquer cidade, há coisas horrendas, é claro. Mas é melhor não falar.

     L - Por quê?
     A - Porque, mais que em outros lugares, talvez inclusive pelo tamanho da cidade, tudo em Porto Alegre vira ofensa pessoal, e não discussão estética. As pessoas querem um reconhecimento artístico a qualquer preço, mesmo que não mereçam, mesmo que façam um teatro horroroso. Então é melhor falar do que é bom do que
“dar de comer aos urubus”, como diria Torquato Neto.

     L - Não é muito radical essa opinião?
     A - Tomara que seja. Em teatro, não há negociação. Ou o cara é bom ou precisa mostrar que é. Não há enganação. E eu gosto disso. Agora, que ninguém se engane: gosto muito de gostar do trabalho alheio, não tenho nenhum problema em elogiar um espetáculo, nem me move ciúme de nada. Eu só acho que tem muita gente que se acha o máximo, e não é. Além disso, tem outra turma, um pouco ou muito pedante, que não tem obra pra mostrar e que, esses sim, rancorosamente, aproveitam sempre para destruir o trabalho alheio que se impõe, tanto na mídia quanto no público.

     L - Há muito conflito, então, nos bastidores da classe teatral?
     A - Não mais que em outros lugares. É natural. São olhares diferentes, posturas diferentes, talentos diferentes. Chega a ser divertida a previsibilidade dos juízos de valor com que os trabalhos são recebidos. Sou contra ir ao teatro para não gostar, para ver defeito, para falar mal. Vou para ver o trabalho e depois tecer considerações e comentários. Para construir uma consciência crítica e artística, nunca para destruir alguém ou alguma obra.

     L - E a política?
     A - Brasileira? Pelamordedeus, pulemos esse assunto.

     L - Por quê?
     A - Porque é tudo tão tedioso e previsível. A corrupção brasileira, inclusive a petista,
é alarmante, assustadora, decepcionante. E a cara-de-pau desta gente defendendo
a ética e a moralidade chega a me dar ânsia de vômito. É bom saber o que se passa,
é claro, mas a overdose de notícias, a comprovação desses fatos, e a facilidade com que esse pessoal mente é impressionante.

     L - Essa é uma sensação que parece generalizada. Você tem alguma explicação para isso?
     A - Bom, ninguém é tão bobo como pensam os políticos, ninguém se presta a ser uma massa de manobra sem cérebro. Então, essa discurseira ideológica se mostrou apenas pano de fundo para interesses escusos, aparelhamento partidário, coisas desse nível. Não dá pra prestar mais atenção que o necessário. É por isso que, às vezes, as urnas surpreendem com pessoas que estavam lá atrás nas pesquisas. Pelo menos, o eleitor quer dar um crédito de confiança em quem não conhece. Porque quem a gente conhece e já sabe das manhas, nesses é melhor não votar mesmo!

     L - Existe saída para o Brasil?
     A - Espero, de todo o coração, que sim. Não me pergunte qual, porque não sou economista, não sou político. Sou um artista trabalhando. Que o meu trabalho seja o melhor possível, não contaminado com a vulgaridade desses tempos, é a minha parte nesse bolo. Se cada um, naquilo que faz, fizesse direito, sem maracutaia ou demagogia, já era um passo importante.

     L - Algo mais a dizer?
     A - Acredito em Deus, em Clarice Lispector, em reencarnação, em bons restaurantes e vinhos, em pessoas sinceras, em lealdade, reciprocidade no amor, fidelidade. E acho a Itália o país mais lindo do mundo. Era isso, por ora. Abração.

 
 

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Romulo Lubachesky,
os trabalhadores das
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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
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