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Internacional  
   
Viagem pelo interior da China
Márcia Schmaltz, da Universidade de Pequim

        Em fevereiro, durante o rigoroso inverno chinês, empreendi uma viagem de 12 dias, pelo que chamo de “núcleo-duro” da China. Trata-se da região sentido norte-sul, entre o Rio Amarelo e o Rio Yangtze, compreendendo as províncias de Henan, Shaanxi, Zhejiang, Jiangsu e Shanghai. O Rio Amarelo é o segundo maior rio da China e é considerado o berço da civilização chinesa. Por volta do ano 3 mil a.C., Huangdi, o Imperador Amarelo, unificou as tribos que viviam à margem deste rio, fazendo surgir, assim, a civilização chinesa. Apresento, aqui, a primeira parte desta viagem.

        Saindo de Pequim, embaixo de neve, iniciei o roteiro por Beijing, com uma visita ao Parque Jingshan, situado atrás da Cidade Proibida. Este parque era o “jardim do imperador” – 29 imperadores das Dinastias Ming e Qing o usufruíram. É particularmente famoso, pois foi nesse local que o último imperador da Dinastia Ming (1368-1644), Zhu Youjian, encurralado pela tropa dos manchus (futura Dinastia Qing), em um ato de desespero e de bravura, enforcou-se num pinheiro. O Parque Jingshan é como um pequeno jardim botânico. Há ciprestes e sóforas centenárias, bambus, salgueiros, azaléias e uma montanha artificial, com um pagode no topo. Este seria o lugar mais alto da Beijing de então, possibilitando uma ampla visão panorâmica, ao imperador.

        No segundo dia, sob um frio de 10 graus negativos e enfrentando forte vento, fui visitar a Muralha da China, maravilhosa como sempre, e as 13 tumbas dos imperadores da Dinastia Ming, nos arredores de Beijing. As tumbas estão localizadas em um vale, protegidas por duas montanhas – uma, chamada de ‘dragão’, e a outra, de ‘tigre’ –, com um reservatório de água ao fundo. Este dá aos mortos das tumbas, segundo a crença, bons fluidos para o sono eterno.

        Somente uma única tumba está aberta à visitação. A “Dingling”, do décimo quarto Imperador da Dinastia Ming (reinado entre 1573-1620), foi aberta, na década de 1950, por arqueólogos, a partir de muita pesquisa e tentativas frustradas para encontrar a entrada. Após a abertura, os corpos do imperador, Wanli, e de suas imperatrizes, enterrados na tumba, foram levados para outro cemitério. Fiquei com pena: por que eles foram interrompidos de seu “descanso”?...

        A história desta tumba é interessante: como a verdadeira imperatriz não teve filhos homens, a concubina que deu à luz o próximo imperador, Taichang, foi nomeada imperatriz, após a sua morte, pelo seu filho, quando ele assumiu o trono. Taichang ordenou, ainda, que sua mãe fosse enterrada na tumba, com todas as honrarias reais.

        É fascinante a história da Dinastia Ming, que governou a China por cerca de 250 anos e foi responsável pela derrubada dos mongóis (Dinastia Yuan – 1206-1368) do poder. Estes haviam invadido a China em 1200. Em 1368, a oposição interna, concentrada em Nanjing (capital do sul), às margens do Rio Yangtse, conseguiu tomar o poder dos invasores estrangeiros. Assumiu o governo, então, como Dinastia Ming. Os dois primeiros imperadores desta dinastia foram enterrados nessa cidade, enquanto que os demais foram enterrados em Beijing. Entre outros méritos, o terceiro imperador da dinastia, Yongle, foi o responsável pela construção da Cidade Proibida e a transferência da capital de Nanjing para Beijing.

        Aqui, terei de contar uma fofoca imperial: o imperador que fundou a dinastia, Zhu Yuanzhang, teve 22 filhos. Para apaziguar os ânimos de todos eles, dividiu seu reino em feudos, um para cada filho. Com a sua morte, o neto de seu filho mais velho, como tinha de ser, assumiu o trono, para insatisfação de seus tios, que se revoltaram contra ele. Assim, esse jovem imperador, mal assumindo o poder, teve de ir à luta contra seus parentes. Venceu todos, menos Yongle, rei de Beiping (antigo nome de Beijing, mas, como na época esta cidade ainda não era capital, não podia ser designada por “Jing”, que significa “capital”). O neto de Zhu Yuanzhen foi derrotado por Yongle, o quarto filho de Zhu Yuanzhen. Este se tornou, portanto, o terceiro imperador e ordenou a ampliação de seu palácio de Beijing, que será a conhecida Cidade Proibida. Assim, Beiping tornou-se Beijing (os chineses chamam o que o Ocidente denomina de Cidade Proibida, de Cidade Imperial. O palácio de Beijing ficou conhecido como Cidade Proibida).

        Das 13 tumbas da Dinastia Ming, o maior mausoléu é o do imperador Yongle. Neste, há um caminho com oito pares de figuras, cada qual em duas posições: um, em posição de repouso, e outro, em pé, significando que está em vigia, guardando o sono eterno do imperador falecido. Os oito pares são: erudito, general, camelo, cavalo, elefante, qiling (animal mitológico), leão, leão mitológico.

        Depois da visita à tumba, saí para a estação oeste, a fim de pegar o trem para a cidade de Zhengzhou, capital de Henan, a 750 km de Beijing. É muito confortável andar de trem na China. Se você comprar uma passagem de leito ou "ruanwo", viaja em um vagão que tem quatro camas, equipado com informativos de viagem, água quente, cobertores e travesseiros, além de televisores individuais, com filmes e clipes para assistir. Dormi durante a noite, ao embalo do trem, despertando às 6h30min, para descer, enfim, em Zhengzhou.

        O guia esperava na saída da estação. Rumamos para a antiga capital da China, na Dinastia Song, Kaifeng. Mais duas horas de carro. As auto-estradas da China são muito bem conservadas. Paga-se pedágio, que funciona perfeitamente.

        Pela manhã, fui ao Memorial erguido em homenagem a Baogong (séc. IX-X), antigo juiz e prefeito da cidade. Ele virou uma espécie de ‘santo’, reverenciado principalmente pelos injustiçados, fracos e oprimidos, que o procuravam para resolver causas impossíveis. Há muitos casos famosos que ele julgou.

        Um deles está retratado em bonecos de cera, dentro desse memorial. Conta-se que, uma vez, um mandarim recém-concursado foi visto pela princesa, que se apaixonou por ele à primeira vista. Por intermédio da rainha, o mandarim tornou-se consorte da princesa. Não revelou, entretanto, que já era um homem casado. Naquele ano, houve uma grande estiagem na terra natal do mandarim e, como ele não aparecia havia três anos, a sua mulher, levando seus dois filhos pequenos, atravessou meia China, indo até Kaifeng, em busca do marido. Mas quem iria saber que esse homem desalmado, deslumbrado pelo poder que estava prestes a alcançar, não os reconheceria e, inclusive, tentaria matá-los? A esposa, triste e furiosa, procurou Baogong, em busca de justiça. O juiz, então, averiguou os fatos, concluiu que a mulher realmente era esposa do mandarim e prendeu-o para julgamento. Apesar da pressão exercida pela rainha, que chegou a participar do julgamento, Baogong não titubeou. Inclusive, salientou que não havia sentido em exercer o cargo de juiz, se não pudesse cumprir com o seu dever. Até pôs seu cargo à disposição, para que realmente fosse feita justiça. Diante dos fatos, a rainha não tinha mais o que fazer. O máximo que conseguiu interferir foi de que o mandarim, noivo da princesa, fosse decapitado com o instrumento de execução destinado à nobreza.

        Esta história acabou virando uma célebre ópera, bastante conhecida pelos chineses. Os personagens são verídicos, apesar de serem de épocas diferentes. A peça foi o resultado de uma vingança, ocasionada por um mal entendido. Olhem só: dois homens foram prestar concurso público, para ingressarem na carreira de mandarim, na cidade de Kaifeng (no período da Dinastia Qing: 1616-1911). Os dois eram pobres, mas um tinha condições financeiras um pouco melhores do que o outro. O homem com mais recursos, então, incentivou o amigo. Não passou, porém, no concurso e voltou, então, imediatamente para a sua terra. No caminho, foi assaltado e, assim, regressou a Kaifeng, em busca da ajuda de seu amigo, agora mandarim. Chegando lá, porém, os guardas do palácio, vendo-o tão esfarrapado, não o deixaram entrar, porque pensaram que era um indigente, querendo passar “o conto do vigário". O homem insistiu muito, fazendo, inclusive, vigília em frente ao palácio. Ao final, os guardas, já impacientes, fingiram ter entrado para procurar o mandarim e afirmaram que o recém-concursado mandou dizer que não o conhecia. O homem ficou furioso e, para vingar-se de seu amigo, escreveu essa ópera, tendo como personagem o juiz Baogong. A peça tornou-se um sucesso tão grande, que o seu amigo mandarim não podia mais sair às ruas, sem ser escoltado. Assim como esta, há várias outras histórias e mitos constituídos em torno dessa figura lendária, que é o Baogong.

        Depois desta ida ao Memorial, fui visitar, ainda em Kaifeng, o pagode Tieta, construído há 900 anos. O monumento já está inclinado, devido à força dos ventos, e tem 54 metros de altura, 13 andares e forma octogonal.

        Percorri, também, um parque temático da Dinastia Song (960-1279, um dos períodos mais prósperos da história da China). Aquela parte de Kaifeng estava efervescente, com as comemorações de ano-novo (pela tradição chinesa, há o calendário lunar, sendo o ano contabilizado por 13 luas). Havia muita gente na rua, apresentações artísticas e várias tendas, vendendo comidas típicas e artesanatos.
O nome do parque, em chinês, é Songdu Yujie, que significa Avenida imperial da capital da Dinastia Song. Era a avenida de saída do palácio imperial. No parque, assisti à apresentação da dança do leão e do dragão "O sr. Wang procura um noivo para sua filha", que retrata o casamento de uma família rica, com rinha de galo, pólo (esporte de taco, que os jogadores praticam a cavalo), malabarismo, cuspidor de fogo... uma infinidade de coisas, representando o cotidiano da Dinastia Song. Todos os trabalhadores do parque temático, inclusive, estavam vestidos com trajes de época. O Songdu Yujie é inspirado num famoso quadro pintado naquele tempo, chamado de "Qingmingshanghe”. Esta tela tem cinco metros de comprimento e um inestimável valor histórico, antropológico e cultural, pois ilustra os costumes, como vestuário e alimentação, daquele período.

Fotos: Márcia Schmaltz
Apresentação artística no parque Songdu Yujie (Kaifeng), em comemoração ao ano-novo chinês.

       Caro leitor, você já percebeu a quantidade de informação, gerada por apenas dois dias de passeio pelas cidades do interior da China. Viajar, aqui, é assim: uma grande quantidade de imperadores, datas e minúcias lhe são apresentados a cada minuto. Neste texto, tentei ser sucinta, para não lhe cansar demais. Aguarde, porém, que a viagem está apenas começando.

 

 
 
 

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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
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