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Internacional
 

Festival da fé na Malásia

Eduardo Oliveira, de Kuala Lumpur

 

    Localizada no sudeste asiático, a Malásia é um dois países mais desenvolvidos dessa região do globo. Ex-colônia britânica, obteve sua independência em 1957 e, hoje, ocupa o 61° lugar no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), elaborado pela Organização das Nações Unidas. A capital, Kuala Lampur, é uma cidade moderna, que atrai visitantes do mundo inteiro. Um dos símbolos dessa modernidade são as Petronas Towers (os edifícios mais altos do mundo), construídas durante o grande aumento da produção de petróleo, nos anos 1990.

     Os 26 milhões de habitantes da Malásia são majoritariamente muçulmanos, mas o budismo e o hinduísmo também são religiões muito praticadas pela população. Chineses e indianos tiveram fundamental importância na construção do país, ao longo dos séculos. Essa diversidade cultural é fortemente expressa nas ruas de Kuala Lumpur, onde, muitas vezes, separados por poucas quadras, pode-se ver mesquitas e templos budistas e hindus .

    Os praticantes do hinduísmo, a propósito, promovem um grande evento religioso, todo ano, na Malásia. Trata-se do Thaipusam Festival , a maior celebração hindu da comunidade indiana do país. O festival é realizado a 15 km ao norte de Kuala Lumpur, nas Batu Caves, que, uma vez por ano, viram o palco da romaria.

    O Thaipusam recebe, todo ano, cerca de um milhão de pessoas, que vão às Batu Caves para prestar tributo ao Lord Murugan, uma das milhares de entidades divinas da cultura indiana. A data da celebração é sempre no décimo dia do calendário hindu, o que, às vezes, pode ser final de janeiro ou início de fevereiro.

    Para chegar ao festival, é possível ir de trem. Olhando pelas janelas do trem, pode-se ter a exata noção da quantidade de pessoas que estão no local. O que se vê é um ‘mar' de cabeças e braços se agitando. Algo assombroso!

Fotos: Eduardo Oliveira

Multidão participa do Thaipusam Festival, em Kuala Lumpur

    Ao sair do trem, a primeira coisa que se sente é o cheiro forte de incenso, entrando pelo nariz e fazendo os olhos marejarem. No caminho para o local onde acontecem os rituais, passa-se por uma centena de barbeiros, todos raspando cabeças, uma atrás da outra: crianças, velhos, homens. Até algumas mulheres ficam carecas, para, de acordo com a simbologia deles, se livrarem dos pecados. As montanhas de cabelo são enormes. A raspagem, porém, não é obrigatória, segundo a religião. Assim, muita gente prefere deixar o corte para uma próxima vez.

Homem raspa a cabeça, para, conforme o Hinduísmo,
livrar-se dos pecados

    Às margens do córrego onde os rituais acontecem, quase não há espaço para tanta gente. Milhares de curiosos e um exército de fotógrafos e cinegrafistas disputam “no cotovelo” as melhores imagens. Os devotos tomam uma longa ducha fria, simbolizando a purificação, e, depois, vestidos com trajes típicos, são chamados um por um e cercados por outros indivíduos que, como eles, também serão hipnotizados.

Hindu toma ducha fria para purificar-se, antes de ser hipnotizado

    Alguns devotos preferem cravar ganchos nas costas e puxar pessoas que, logo atrás, vêm segurando as cordas presas nesses mesmos ganchos. Alguns deles devem tomar alguma droga mística, ou algo parecido, que facilite o transe e amenize a dor, pois muitos têm os olhos esbugalhados, de tal forma que parecem saltar do rosto. Eles caminham por cerca de 1 km , até chegarem ao primeiro dos 272 degraus que levam à entrada das Batu Caves. Sem parar para tomar fôlego, iniciam a subida, para, lá em cima, rezar e depositar nas grutas as oferendas que trazem.

         Nossa viagem ao Festival termina aqui. O cansaço, associado ao forte calor, inviabilizou a continuação. O sol, que até então estava encoberto, saiu do meio das nuvens com força total, ‘queimando a moleira' e aumentando significativamente o odor de suor, dos mais de um milhão de pessoas que lá estavam. Vale frisar, não existe banheiro suficiente na Malásia e em nenhum lugar do mundo pra toda essa gente. O ar em alguns pontos estava completamente ‘podre', amenizado, é verdade, pelo cheiro de incenso. No chão, substâncias diversas, de fortes odores e aparência nojenta, incomodavam quem não está acostumado com as peculiaridades da celebração.

Rituais hindus no Thaipusam Festival. O vermelho no rosto de algumas pessoas não é sangue, mas um pó que, misturado com água, vira uma tinta usada para pintar a pele.

 
    Em comparação com o que é feito na Malásia, pagar promessa no Brasil é uma tarefa relativamente simples. Subir escadarias de joelho ou rezar ajoelhado no milho é quase nada, tendo em vista o que acontece durante esse festival. Os devotos hindus se submetem a rituais muito dolorosos – pelo menos, aos olhos ocidentais – e levam realmente ao extremo suas demonstrações de fé. Assistir documentários sobre o festival, mostrando pessoas com pequenos potes de metal, pendurados na pele por ganchos, e com bochechas transpassadas por lanças é uma coisa. Ver tudo isso ao vivo é outra. Não há como ficar indiferente àquele pedaço de metal dourado atravessando o rosto de uma pessoa. É doloroso presenciar isso – ao menos, novamente, para quem é ocidental. Os hindus, por sua vez, não dizem um “ai”. Não gemem, não tremem um músculo e, o mais incrível de tudo, não sangram. Nada, nem uma gota. O estado de hipnose é total.
 
 
 

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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
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