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Literatura
 
Machado de Assis: que ironia!...
Lucas Colombo
 
     O leitor pode estar se perguntando: por que um artigo sobre Machado de Assis (1839-1908)? Há algum fato da atualidade sobre o autor que permita fazer aquilo que, em Jornalismo, chama-se “gancho” – um fato que ‘puxa’ a produção de uma matéria de assunto correlato? Fosse um ano atrás, talvez sim. Em dezembro de 2005, o jornalista Daniel Piza lançou uma biografia do escritor, intitulada Machado de Assis: um Gênio Brasileiro. O livro recebeu amplo destaque e provocou discussões que adentraram os meses subseqüentes ao lançamento. Não há, porém, um fato recente que se relacione a esse que é um dos maiores nomes da literatura brasileira.

     Isso não impede, contudo, que se fale sobre o autor de Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e de memoráveis contos, como Um Homem Célebre e Pai Contra Mãe. Afinal, a obra dos grandes artistas é atemporal e sempre admirada/discutida. Qual o motivo para Frida Kahlo, Pablo Picasso, Henri Matisse serem sempre apreciados? Por que Charles Chaplin, Federico Fellini, Luis Buñuel são continuamente assistidos? E por que nunca se pára de ouvir Mozart, Cole Porter, Tom Jobim? Porque estes artistas criaram obras de alto valor estético, trabalhos tão interessantes e de tanta qualidade que, nesses, freqüentemente se descobre algo novo, se é tocado de alguma forma. O que é bom, será bom em qualquer tempo. Uma matéria sobre Machado de Assis, portanto, sempre terá leitores (pelo menos, deveria).

 
     Uma das características mais interessantes da obra machadiana, entre tantas, é o uso da ironia. Análises e mais análises já foram feitas sobre este tema, mas as discussões não se esgotam. Machado de Assis empregava o recurso de modo tão marcante que impressiona até mesmo o leitor contemporâneo, acostumado às ironias de, por exemplo, figuras da imprensa, como Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi e Luis Fernando Verissimo, e do cinema, como Woody Allen – o cineasta nova-iorquino, a propósito, já afirmou ser fã de Machado. Nossa época atual está impregnada de ironia, e, mesmo nestas ‘condições’, a mordacidade do escritor carioca causa inquietação.

     Sobre um dos romances mais fortemente irônicos do autor, inclusive, há um dado curioso. Poucos sabem que Quincas Borba foi lançado, inicialmente, em folhetim. A história de Pedro Rubião, um professor primário que herda toda a fortuna do filósofo louco Quincas Borba, de quem era amigo, foi publicada em capítulos, no suplemento literário do jornal de moda feminina A Estação, do Rio de Janeiro, entre junho de 1886 e setembro de 1891 (o período foi longo, porque houve muitas interrupções na publicação). Para o lançamento da história em livro, no mesmo ano em que o folhetim encerrara – 1891 –, Machado alterou a ordem dos capítulos iniciais, incluiu novos trechos ao longo do romance, suprimiu algumas passagens mais melodramáticas (características da literatura folhetinesca) e redimensionou a ironia presente na obra.

     As duas versões de Quincas Borba são, atualmente, objeto de pesquisa de Ana Cláudia Suriani da Silva, doutoranda da Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde também dá aulas de Língua Portuguesa. Sua hipótese é a de que Machado de Assis teria mudado estes aspectos do romance para afastá-lo do gênero folhetim. A edição em livro de Quincas Borba daria uma outra dimensão à obra, implicando algumas mudanças de caráter estético. Além disso, na segunda versão, o escritor deu tratamento diferenciado à própria Filosofia do Humanitismo, proposta pelo personagem Quincas. “A ironia muda na passagem do folhetim para o livro. Machado também desenvolve muito mais o Humanitismo, na segunda versão. Nesta, fica mais explícita a própria ironia do destino de Rubião, que se muda para o Rio de Janeiro para ‘colher as batatas na capital’ – trecho acrescentado na segunda versão – e acaba, no final, sendo derrotado. Na versão definitiva, a trajetória de Rubião serve, assim, como exemplificação do Humanitismo”, comenta Ana Cláudia, autora de Linha reta e linha curva: edição crítica e genética de um conto de Machado de Assis (Editora Unicamp, 2003). A ironia do romance, conforme a pesquisadora, também se constrói a partir da orientação política da revista em que foi originalmente publicado: “A Estação era uma revista pró-monarquia. Machado escreveu exatamente uma história em que o personagem principal desenvolve uma megalomania imperial. Rubião acredita ser, no final, imperador não do Brasil, mas da França”, completa Ana Cláudia Suriani.

     Sobre o “Humanitismo”, a propósito, pode-se dizer que a teoria defendida por Quincas Borba também possui um componente irônico. Para explicá-la, Quincas descreve a seguinte situação: há duas tribos famintas, em um campo de batatas. Essas podem alimentar somente uma das tribos, que, assim, ganhará forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância. Se as duas tribos dividirem em paz as batatas, no entanto, não irão nutrir-se suficientemente e morrerão de inanição. Nesse caso, a paz é a destruição, e a guerra, a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Quincas conclui a explicação com a célebre frase: “Ao vencido, o ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. Com essa idéia, Machado faz uma metáfora das relações na sociedade burguesa.

Arte de Deise Tagiane sobre foto da Wikipédia


     Outras obras do escritor carioca também apresentam forte ironia. É famosa, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, a fala do personagem-narrador sobre seu relacionamento com a personagem Marcela: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”. Nessa fala, a ironia decorre do fato de se medir o amor segundo critérios cronológicos e financeiros. Nos seus extraordinários contos, Machado também emprega bastante o recurso. No final de Um Homem Célebre, o personagem Pestana – músico que almejava criar sinfonias, mas só conseguia compor polcas –, já muito doente, recebe a visita do editor de suas partituras. Ele queria lhe pedir uma polca, em alusão à subida dos conservadores ao poder. Pestana, entretanto, não suportava mais compor apenas o que os outros queriam e faz ironia de sua própria situação:

     – Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.

     No livro Machado de Assis: Literatura Comentada (Abril Educação, 1980), a professora e escritora Marisa Lajolo sustenta que a ironia com que Machado contempla o mundo de seus romances e contos é muito eficiente como postura literária, “identificando um contador de casos que sabe tomar distância do que conta e que sabe, também, manter o leitor à distância”. Marisa ressalta, ainda, que a ironia machadiana – insinuada em frases curtas, mas de longo alcance – repassa o ceticismo desse escritor e faz o leitor “dar um sorriso de descoberta, de conivência, de piedade, de reconhecimento”. Os professores Carlos Faraco e Francisco Moura, por sua vez, na obra Literatura Brasileira (15. ed., Ática, 1998), comentam que a ironia, em Machado de Assis, é um modo de fazer com que o leitor reflita sobre a vida. Simplesmente. Alguém discorda?

     Impressionado com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Woody Allen declarou o seguinte, em entrevista ao jornal O Globo (1996): “Achei Machado de Assis excepcionalmente espirituoso, dono de uma perspectiva sofisticada e contemporânea, o que é incomum, já que o livro foi escrito há tantos anos. Fiquei muito surpreso. É muito sofisticado, divertido, irônico. Alguns dirão: ele é cínico. Eu diria que Machado de Assis é realista”. De fato. São características como estas que fazem do “bruxo do Cosme Velho”, como o chamou Drummond, um escritor genial – e absolutamente atemporal. Fica, aqui, então, o convite para que o leitor ‘reencontre’ Machado de Assis e, assim, descubra um pouco mais sobre o ser humano.

 
 
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O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
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Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
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