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Usina Pazza é uma publicação da Pazza Comunicazione, destinada
à informação e análise
de temas relacionados
à comunicação e cultura
do Brasil e do mundo.

Os textos são de inteira responsabilidade
de seus autores. 

 
Entrevista
Leticia Wierzchowski
 
Simplesmente Leticia
Lucas Colombo

        Leticia está em Manuela assim como Manuela está em Leticia. Uma dentro da outra, como a fruta dentro da casca. Perdoe-me, Machado de Assis, mas é a própria escritora quem afirma: “A Manuela não deixava de ser um alter ego meu”. Leticia Wierzchowski é “uma contadora de histórias”, como a personagem principal do romance A Casa das Sete Mulheres (2002), que conduz a narrativa por meio das impressões sobre a época da Guerra dos Farrapos, anotadas em seu diário. A escritora mesma, modestamente, já se definiu assim.

        As histórias que Leticia tem para contar já renderam dez livros. A estréia na ficção foi em 1998, com o romance de cunho fantástico O Anjo e o Resto de Nós. Desde então, a média é de duas obras escritas

por ano. Com A Casa das Sete Mulheres, que virou minissérie exibida pela TV Globo em 2003, a autora consagrou-se definitivamente. O livro ultrapassou a marca de 50 mil exemplares vendidos. Em 2004, Leticia publicou Um Farol no Pampa, o volume 2 de A Casa das Sete Mulheres.

         Agora, a porto-alegrense de 34 anos lança uma nova obra. Trata-se de um romance sobre "um achado": a vida de seu avô, o polonês Jan Wierzchowski. Ele emigrou para o Brasil, em 1936, deixando família na Europa. Sua avó foi assassinada, e dois de seus irmãos morreram na Segunda Guerra Mundial. “É uma história muito triste, que ele nunca havia contado para ninguém”, comenta Leticia.
O livro, intitulado Uma Ponte para Terebin, já está nas livrarias.

        Filha de um empresário do setor de imóveis, Leticia viveu em uma casa de quatro mulheres (ela é a mais velha de três irmãs), leu muito Gabriel García Márquez e Tabajara Ruas e cursou Arquitetura. Desistiu da Graduação, para escrever. Freqüentou a oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil e não parou mais. De porte elegante, estilo simpático e fala natural, a neta de Jan revela que “família” é um de seus temas preferidos: “Tudo na vida é um núcleo familiar: uma empresa, o país... Família é a gênese de todas as relações”, diz a escritora.

        Depois de três dias em São Paulo, onde participou de um debate sobre Mario Quintana na 19ª Bienal do Livro, Leticia Wierzchowski concedeu esta entrevista exclusiva.

Usina Pazza – Como foi a Bienal?
Leticia – Eu fui ao evento por causa de um amigo, o Márcio Vassalo, que escreveu uma biografia do Mario Quintana. Quando ele publicou, eu fiz uma crônica na Zero Hora, falando do livro. O Márcio, então, me convidou para participar de um debate sobre a vida e a obra do Mario. E foi ótimo. Eu participei das quatro últimas edições da Bienal, e esta foi a melhor de todas. Mario Quintana é encantador, a platéia se emociona. Ele foi muito importante na minha vida, eu comecei a ler com o Mario... Acho-o um grande poeta.

Usina Pazza – Poesia a atrai? Você não arrisca fazer poesia?
Leticia – Eu não sou uma poeta porque não sou concisa... O meu exercício é bem o inverso. O meu marido (o publicitário Marcelo Pires) escreve poemas. Ele tem até um livro de poesias, publicado aqui no sul, pela editora do Ricardo Silvestrin. Eu leio poesia, não tanto quanto ele, mas tenho autores muito queridos.

Usina Pazza – Como quem, por exemplo?
Leticia – Fernando Pessoa, Mario Quintana... Gosto muito, também, de E. E. Cummings – pena que ele é muito pouco traduzido. E, agora, me apaixonei por uma poetisa chamada Wislawa Szymborska. Ela é polonesa e foi Nobel de Literatura. Eu participei de um evento polonês, no ano passado, um sarau, e pediram para eu ler uns poemas dela. Aí, me apaixonei. Ela não tem nada editado em Português do Brasil, mas a obra dela já saiu em Portugal e em língua espanhola. Ela é maravilhosa.

Usina Pazza – A literatura gaúcha, em especial a de cunho histórico, é um meio predominantemente masculino. Como é ser uma escritora, uma mulher, de destaque neste meio?
Leticia – Na verdade, entrei no campo da literatura histórica por distração. Nem imaginei que estava me metendo nesta coisa toda... Comecei a escrever A Casa das Sete Mulheres – e depois escrevi Um Farol no Pampa – por encantamento. Eu tenho uma relação muito longa com o Tabajara Ruas. Sabe aquela coisa do ‘primo-do-vizinho-do-amigo’?... O Tabajara é cunhado da minha tia. Ele voltou do exílio quando eu era criança, e eu sempre fui muito criativa, desenhava bem, gostava de escrever... Quando nos encontrávamos, o Tabajara dizia: “essa menina vai fazer alguma coisa de interessante...” Acho que ele já percebia alguma coisa criativa em mim. Eu, porém, fui ler Os Varões Assinalados quando já estava até casada. Eu havia lido toda a obra dele, menos este livro. Foi um encantamento. Acabei entrando neste campo, e com a ajuda do Tabajara, que, primeiramente, me cedeu a idéia, depois me ajudou a compô-la. Eu ligava toda hora pra ele. Mas eu não me incomodo muito com essas classificações. Só escrevo minha história e pronto.

Usina Pazza – Então, você não gosta das expressões “literatura gaúcha” e “literatura feminina”?
Leticia – Não, eu não penso nisso. Estou lançando meu décimo livro agora, a história do meu avô polonês. Dos dez livros que já publiquei, apenas dois têm temáticas históricas – como teriam qualquer outra. Até pretendo fazer disso uma trilogia... Mas acho que escrevo livros assim com tanta afeição, com tanta angústia, quanto qualquer outro livro. Uma história que poderia ser qualquer outra.

Usina Pazza – Na própria Literatura Brasileira, há poucas mulheres de destaque: Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai, Nélida Piñon...
Leticia – É, mas nós temos que levar em consideração que a mulher começou a se manifestar muito depois do homem. Se formos analisar, hoje em dia, existem várias grandes escritoras. As mulheres sempre escreveram, mas algumas vezes usaram pseudônimos, como no século XIX, por exemplo. Enfim, literatura é literatura. Não me interessam classificações.

Usina Pazza – Mas você participou da antologia “25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira”...
Leticia – Pois é, mas achei estranho... Não são só 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, e nem só aquelas 25 da coletânea... Eu participei porque a editora era a minha, eu tinha um conto pronto e o organizador era o Luiz Ruffato, um grande escritor, uma pessoa gentil... Ele me convidou e eu entrei no projeto, mesmo sem muita noção do que este se tratava. O Luiz me falou: “estou organizando um livro de contos de mulheres...” Eu participei, do mesmo modo que participaria de uma coletânea de contos sobre ‘panelas’, se eu tivesse um texto que entrasse... Depois, todas as mulheres meio que se ofenderam com o tom do lançamento do livro. As escritoras diziam: “não, não existe literatura feminina!”. Eu nunca parei para pensar nesta expressão “literatura feminina”.

Fotos: Divulgação

Usina Pazza – O próprio A Casa das Sete Mulheres apresentava um ângulo diferente, que era a visão feminina da Guerra dos Farrapos.
Leticia – Inclusive, eu adoro falar sobre guerras, né?... Eu acabei agora este livro com a história do meu avô, que se passa na Segunda Guerra Mundial, e a minha editora disse: “vem cá, mas pra qual guerra tu vais agora? Tu vais te especializar como a escritora brasileira que mais escreve cenas de guerra...”. E é verdade.

Usina Pazza – Adaptações sempre causam certo estranhamento. Nenhuma adaptação para TV de um livro, por exemplo, é exatamente fiel à história original, até porque são linguagens diferentes. Você mesmo disse, em reportagem, que a minissérie A Casa das Sete Mulheres tinha mais cenas de sexo do que o livro, o que é uma característica da ficção televisiva. Qual a sua percepção a respeito de adaptações?
Leticia – A minissérie foi bem diferente do livro. Os personagens eram diferentes... Na medida em que tu optas por criar uma coisa nova ou ir por um caminho diferente do romance, este caminho abre outros tantos. Então, cada vez vai-se afastando mais daquilo que seria um personagem original. Mas isto é assim mesmo. Seria uma ilusão pensar que o meu livro, ou qualquer outro livro, iria para a televisão, sem levar os clichês da televisão. Apesar disso, eu acho adaptações algo super legal. Quando a minissérie foi exibida, houve críticas do tipo: “ah, a Leticia escreve livros para a TV...” Inclusive, falaram que o livro foi encomendado pela Rede Globo, o que não é verdade. Até poderia ter sido, mas não foi. E se fosse para fazer, eu faria direto um roteiro... Mas eu não me incomodo com isso. Nós temos uma literatura tão legal, tão ampla, tão colorida, que é melhor mesmo que a televisão se debruce sobre isso e, de alguma maneira, mesmo que por vias tortas, informe o telespectador sobre coisas que ele jamais buscaria num livro – e que o fazem buscar um livro. Por exemplo: não foi à toa que A Casa das Sete Mulheres ficou, depois que a série estreou, por 18 semanas, como o livro mais vendido do Brasil. O produto televisivo tinha apelo suficiente para fazer gente que jamais comprou um livro na vida começar a comprar.

Usina Pazza – A televisão pode ajudar a vender livros?
Letícia – Não só pode, como ajuda mesmo, quando ela se dedica ao assunto. Na época, aumentou também, aqui no sul, a venda de livros sobre a Revolução Farroupilha. Foi impressionante, todo mundo queria se informar. Então, não vejo nada de agressivo nisso. Os puristas reclamam, mas enfim... Certa vez, o Nico Fagundes me disse: “ah, guria, o pessoal fica aí reclamando, mas vou te dizer uma coisa: faz 30 anos que eu estou no meio regionalista e não consegui fazer, neste tempo todo, o que tu conseguiste fazer com teu livro”. O público passou a saber quem era Bento Gonçalves, quem era Garibaldi... Passou a saber o correto? Exatamente, talvez não, mas passou a saber mais do que sabia antes. Se tiver interesse, vai atrás, para descobrir mais.

Usina Pazza – Há um outro momento da história gaúcha que você acha que poderia ser contado sob uma ótica diferente, como você fez no A Casa...?
Leticia – Tenho vontade de, depois que lançar este livro sobre meu avô, desenvolver alguma coisa a respeito da Ditadura. Naquele período, minha mãe era adolescente, ela me conta coisas. Talvez um dia, quando eu fechar este círculo, possa contemplar o período da Ditadura.

Usina Pazza – De que forma é possível trabalhar com história gaúcha, sem correr o risco de glorificá-la? Isto é um traço comum da nossa cultura – o gaúcho tem muito orgulho de sua história. Não pode ser perigoso enaltecer muito os feitos gaúchos?
Leticia – Olha, se tu vais escrever um romance, tu tens de escolher o que queres fazer: criticar ou enaltecer. Tu só tens que decidir bem em que lugar tu estás. Por exemplo: eu acho que do A Casa das Sete Mulheres para o Um Farol no Pampa, eu assumi uma postura muito mais madura, em relação aos episódios que abordo. No A Casa..., porém, estava contando uma história de heróis. Isto sob o ponto de vista de sete mulheres, cujas vidas financeira e emocional, inclusive, dependiam do desfecho da guerra. Era meu objetivo, eu não podia fugir. Cada autor tem sua proposta. Por exemplo: o Sérgio da Costa Franco, um historiador maravilhoso que sempre me ajuda, escreveu um livro genial sobre o cerco a Porto Alegre. Nesta obra, no olhar dele de historiador, os farrapos eram uns incompetentes, uns tolos, uns polêmicos. E é um livro que tu lês e concordas. Toda questão tem mais de um lado. Tu só tens de escolher o lado para o qual tu queres olhar. Um dia, posso contar de outro jeito. Por exemplo: no meu livro, a Anita Garibaldi não tem importância nenhuma. No entanto, quem foi a Manuela? Ninguém. Ela não tem destaque nenhum nos livros de História. Foi, porém, a minha principal personagem feminina. Tanto que, no meu livro, eu nem contemplo a Anita Garibaldi, porque seria impossível manter a minha personagem, com a força que ela tinha, se eu entrasse no mérito da Anita. Inclusive, este foi, a meu ver, um defeito da minissérie: criar um triângulo amoroso entre o grande galã, que era o Garibaldi, a Anita e a Manuela. Como não poderiam elevar a Manuela à condição de heroína, rebaixaram a Anita à categoria de uma mulher vulgar. Achei injusto com a personagem histórica que foi a Anita Garibaldi.

Usina Pazza – E aquilo de a Manuela fazer o parto do filho da Anita e do Garibaldi?
Leticia – Ali, realmente, a mão pesou um pouco. A série foi ótima, foi bonita, mas a Manuela fazer o parto da Anita foi um exagero... Até porque, dentro da minha história, a Manuela não poderia ficar com o Garibaldi, porque não teria fibra para acompanhar a vida dele. Na série, porém, apesar disso, ela o acompanha, vira uma enfermeira abnegada... Então, ali eu acho que teve outro erro – que, de certa forma, é comum à televisão.

Usina Pazza – Alguns críticos afirmam que a literatura gaúcha insiste muito nas temáticas regional e histórica. Você concorda? Acha que os escritores daqui deveriam diversificar mais suas temáticas?
Leticia – Eu não acredito que esta equação seja tão real. O Rio Grande do Sul tem tantos escritores... É uma parcela pequena que trabalha com temas regionais. Hoje em dia, inclusive, nem é moderno fazer isso. Um dos defeitos que me atribuem é eu não ser moderna, porque estou fazendo o que já foi feito. Eu não acredito tanto nisto, não. Acho que as pessoas prestam muita atenção nesse ponto. Há coisas que são eternamente contadas. Ninguém, por exemplo, se incomoda que se faça um filme sobre Tróia pela enésima vez. Se alguém, contudo, escreve sobre a Revolução Farroupilha, dizem que ele não tem mais o que fazer. Penso que cada um conta a história que quiser. O importante é chegar a um bom resultado.

Usina Pazza – Em A Casa das Sete Mulheres, O Anjo e o Resto de Nós e A Prata do Tempo, você conta histórias de grandes famílias. Você, inclusive, já afirmou que uma família é “um baú de achados”. O que é um verdadeiro achado nas histórias de famílias?
Leticia – Olha, eu acabei o romance do meu avô agora, e é exatamente sobre um achado...

Usina Pazza – O que é um achado na história de seu avô?
Leticia – O meu avô veio da Polônia para o Brasil, em 1936. Ainda não tinha estourado a Segunda Guerra, ele não era judeu, era polonês. E veio casado com uma prima, que morreu quando chegou aqui. A família toda ficou na Polônia. Quando a Polônia foi invadida, em 1939, e a guerra começou, meu avô já tinha casado com minha avó, uma descendente de poloneses que nasceu no Brasil, e já tinha um bebê. Ele se alistou com os voluntários poloneses e lutou na guerra para libertar o país dele. Não lutou com os brasileiros, lutou com os poloneses. A Polônia criou uma Divisão, para recolher os poloneses espalhados pelo mundo, pois sempre houve uma diáspora muito grande naquele país. Depois, a guerra acabou, ele voltou, teve outros filhos – dentre os quais a minha mãe – e morreu, quando eu tinha sete anos. Meu avô nunca comentou exatamente o que havia acontecido com a família dele.Tinha, porém, uma caixa em que guardava cartas, todas escritas em polonês.
Capa do novo livro de Leticia,
“Uma Ponte para Terebin”
(Editora Record)
Quando ele morreu, a minha mãe guardou-a num armário. Um dia, eu achei e perguntei o que era aquilo. E ela respondeu: “são só umas cartas do teu avô”. Eu disse: “mãe, vou levar isto para casa, senão alguém vai acabar jogando fora”. Busquei alguém para traduzir aquelas cartas, pois não falo polonês. Então, este foi o achado: ter descoberto a história da família do meu avô, que tinha ficado na Polônia, por meio daquelas cartas. Ele nunca tinha contado para ninguém. Uma história muito triste, como foi a história de todos os poloneses, judeus ou não. O meu avô tinha três irmãos e uma irmã na Polônia. Dois morreram: um, lutando na resistência em Varsóvia, e o outro, assassinado pelos russos, por ter, de alguma maneira, colaborado com a resistência polonesa e com os Aliados. O terceiro trabalhou num campo de concentração, nos fornos crematórios. Tragédias fortíssimas. Fiquei chocada com esta descoberta. O que mais me emocionou, no entanto, foi o fato de meu avô nunca ter contado esta história pra mim – afinal, o sofrimento também é uma bandeira que as pessoas ficam levantando. Ele voltou pra cá e criou os filhos dele como pessoas comuns, não como descendentes de uma família em que a avó tinha sido queimada viva, a bisavó tinha sido assassinada, os sobrinhos foram mortos... Então, quando eu descobri, pensei em como ele era uma pessoa boa. Meu avô conseguiu guardar um sofrimento e não deixar que ele contaminasse a família dele aqui.

Usina Pazza – Em outra ocasião, você disse: “O que me motiva a escrever é sempre um personagem qualquer que me vem, seja lá quando, e que fica me visitando por algum tempo, resistindo à confusão das minhas idéias. E esse personagem acaba sendo o fio condutor do livro.” Como são essas visitas dos seus personagens? Eles geralmente chegam de surpresa, sem avisar, e acabam se hospedando? Há visita rápida e visita prolongada?
Leticia – As visitas rápidas geralmente não dão em nada (risos). Mas as minhas histórias surgem mais ou menos assim: eu fico voltando com personagens. O meu avô, por exemplo, foi o primeiro personagem da minha vida, até porque eu era uma criança, morava na casa dele. Aquele mundo, para mim, era quase uma coisa ficcional. Então, eu fiquei, por muito tempo, esperando para escrever a história dele. O momento certo foi agora. E eu já tenho outra personagem, uma tia, que eu já criei louca... Ela fica bordando um tapete enorme para contar a história da família. Certamente, será o fio condutor de algum dos próximos livros que eu vou escrever. Não sei o que a envolverá na história, mas a considerei uma personagem tão interessante, bordando este tapete... Já a Manuela surgiu a partir da leitura d’Os Varões Assinalados, do Tabajara. No livro, há a visita que o Garibaldi, juntamente com o Bento Gonçalves, faz à casa das mulheres. O Tabajara insinua certo clima de romantismo, entre o Garibaldi e a Manuela, durante o jantar... Eu não me esqueci disso e falei: “esta história tem de ser contada...” A Manuela surgiu mais ou menos aí. A menina do Cristal Polonês, também, representava um pouco a minha própria infância. E o livro acabou ficando bem íntimo... Eu acredito nisso, sabe?

Usina Pazza – E você escreveu A Casa das Sete Mulheres para a Manuela?
Leticia – Eu comecei escrevendo para a Manuela e, depois, me apaixonei pelos outros personagens, como a Dona Antônia – tanto que ela segue sendo uma personagem importante, na continuação da história. Mas eu escrevi para a Manuela, sim.

Usina Pazza – Você já se definiu como “contadora de histórias”. A Manuela, então, tem muito de você?
Leticia – Como a personagem principal era ela, e a história era contada através do olhar dela, a Manuela não deixava de ser um alter ego meu.

Usina Pazza – Você diria que seu estilo é?...
Leticia – Não sei... Prolixo?... (risos). Eu não consigo ser breve...

Usina Pazza – Definir o estilo não pode ser limitador? Não se corre o risco de ficar preso a uma tendência estética?
Leticia – Eu não acredito nisso. O escritor, o artista, pode estar sempre se renovando. Eu não tenho estilo. Gosto muito de contar histórias que se desenvolvam a partir de um núcleo familiar. Isto porque eu acho que tudo na vida é um núcleo familiar: uma empresa é um tipo de núcleo familiar, o país também... Família é a gênese de todas as relações. Estou sempre me envolvendo com isso.

Entre os livros publicados por Leticia em oito anos de carreira, estão
"O Anjo e o Resto de Nós” (1998), “A Casa das Sete Mulheres” (2002),
“Cristal Polonês” (2003) e “Um Farol no Pampa” (2004).

Usina Pazza – Porto Alegre tem visto surgir, nos últimos anos, inúmeras oficinas literárias. Você participou da oficina do Luiz Antônio de Assis Brasil. Qual a sua opinião a respeito delas? São eficientes?
Leticia – As boas funcionam e as más são inócuas... Eu fiz só uma, e foi excelente. Trouxe-me muitos benefícios. Não posso opinar sobre as outras, pois não as conheço.

Usina Pazza – E por que há tanta gente querendo escrever? As vagas destas oficinas são bem disputadas...
Leticia – As da oficina do Assis Brasil, principalmente, que é, talvez, a mais respeitada do país. Não existe, porém, caminho aberto para quem quer ser escritor. A pessoa se vê no meio de um matagal, tendo que abrir caminho a facão. Então, as oficinas não deixam de ser, pelo menos, a ilusão de um caminho. Algumas são mesmo o caminho, e outras, só a ilusão. Penso que é por isso que muita gente vai às oficinas. Atualmente, há os blogs, esta capacidade toda de manifestação, as pessoas querendo se expressar... É por isso também: as pessoas têm mais espaço para expor sua opinião. Embora a literatura não seja apenas opinião, são várias coisas misturadas.

Usina Pazza – E você acompanha blogs?
Leticia – Eu não!... (categórica). Tenho livros enormes para ler, lá em casa...

Usina Pazza – Mas muita gente diz que o blog pode ser a ferramenta para a literatura do futuro...
Leticia – Muita gente diz muita coisa, né?... (risos). Nunca parei para pensar nisso, até porque não acompanho blogs... Mas a ferramenta para a literatura do futuro é ler. Ler bons textos. Até pode ser que existam blogs geniais e eu não os conheça, mas...

Usina Pazza – Pode haver, porém, uma literatura produzida para a Internet? Não seria o caso do livro que você lançou, com reproduções de e-mails trocados entre você e o seu marido?
Leticia – Mas isto não foi exatamente literatura... Na verdade, foi mais um acidente do que literatura. O meu marido leu meu primeiro romance e me enviou um e-mail. Ele é gaúcho, mas morava em São Paulo, e eu, em Porto Alegre. Começamos a trocar e-mails, ele veio até aqui para me conhecer, depois começamos a namorar... Casamos dez meses depois. E ele se encarregou de fazer as lembranças do casamento. Sem eu saber, editou um livrinho com a reprodução dos nossos e-mails. Tinha capa de tecido, e tal... Fez um para cada convidado do casamento. Isto porque nós casamos muito rápido, e nossas famílias não chegaram a se conhecer direito. Eu só conhecia os pais e irmãos dele, e ele, os meus. Foi uma maneira linda de ele fazer com que todos conhecessem a nossa história. Entre os convidados, estava o Ivan Pinheiro Machado (editor da L&PM). Dias depois, ele me ligou e disse: “minha mulher leu o livro, minhas filhas também, as amigas delas também, e todas estão chorando. Certa vez, o Josué Guimarães me falou: ‘quando uma mulher chora lendo um livro, ele tem que ser editado’. Vamos editar?”. Aí, eu respondi: “vamos”. E o livro aconteceu. Na época, muitas pessoas perguntaram se eu não iria me expor demais... Hoje, eu não faria de novo, porque sou uma pessoa pública. Mas naquele período foi legal, não me arrependo. As pessoas sempre falam do livro pra mim. Acho que tudo que toca as pessoas, que emociona, é válido. Não tenho preconceitos.

Usina Pazza – O que um bom livro pode trazer ao leitor? Emoção, como você falou agora?
Leticia – Emoção e informação. Eu acredito muito nas duas coisas. E acredito muito, também, em tirar o leitor de seu contexto. O mundo cada vez nos exige mais... Um bom livro é aquele que ausenta o mundo do leitor. Que faz o inverso.

Usina Pazza – Nós estamos vivendo um período de “caos” no mundo – corrupção, terrorismo, individualismo exacerbado, crise de paradigmas – como gostam de dizer os pós-modernos. Qual a função do artista, ou do escritor, em tempos como esses?
Leticia – Eu acho que o mundo sempre foi um caos... Inclusive, ele surgiu do caos (risos). Isto não é de agora. Bem, eu não gosto do mundo que estou vendo hoje, mas meu avô também não gostava do mundo que ele via 50 anos atrás. Claro que me preocupo, eu tenho filho... Mas eu penso que a função do artista é, no mínimo, separar o joio do trigo, sabe? Nem ser dramático, nem ‘passar a mão’ em cima. Vamos olhar uma coisa de cada vez.

Usina Pazza – A responsabilidade é grande?
Leticia – Não acredito que seja grande, porque se o artista quiser escrever sobre uma flor, ele escreverá... Apenas cumpra o que você se propõe. Tem gente que publica 20 livros sobre ‘11 de Setembro’... Eu não li estes romances ainda, mas se um destes alcançou o seu objetivo, ótimo. Ficar, porém, só usando a coisa como um meio para não dizer nada, não é um mérito.

Usina Pazza – Entre os escritores consagrados, quem você não se cansa de ler? E se você pudesse recomendar um escritor ainda pouco conhecido, quem recomendaria?
Leticia – Eu não me canso de ler Eça de Queiroz. Ele toca nas questões essenciais do ser humano e dos relacionamentos. É um escritor que nunca vai envelhecer, tem uma agudez incrível. E entre os escritores contemporâneos, eu não poderia deixar de citar aquele inglês...

Usina Pazza – Ian McEwan?
Leticia – Este mesmo. É um grande escritor da atualidade.

Usina Pazza – E entre os poucos conhecidos?
Leticia – Eu até citaria uma brasileira: pra mim, a Adriana Lunardi (catarinense, lançou “Vésperas”, em 2002) é uma grande escritora. Gosto muito do trabalho dela.

Usina Pazza – O Erico Verissimo realmente é uma referência pra ti, uma fonte de inspiração?
Leticia – Ele é uma fonte de inspiração tanto quanto qualquer outro escritor cujo trabalho eu admire. É como um arquiteto que vê um grande projeto: ele não sente vontade de copiar, mas, sim, de criar. Eu não me inspiro no Erico, eu me deleito com ele.

Usina Pazza – Para terminar, vou fazer a mesma solicitação que a Clarice Lispector fez para o Neruda, quando o entrevistou: “Diga alguma coisa que me surpreenda”:
Leticia – Puxa vida!... Bem, é verdade que, talvez, surpreender Clarice Lispector não fosse tão fácil, mas como ele era o Neruda...

Usina Pazza – Ele respondeu: “748”. (risos)
Leticia – (risos). O que eu posso dizer que te surpreenda?... (fica uns segundos em silêncio, pensando e sorrindo). Eu não sou boa para raciocínios sintéticos... mas isso não surpreende, né?

Usina Pazza – Sinceramente, não...
Leticia – Eu não sei. Não tenho a pretensão de surpreender ninguém. Pode ser isso? “Eu não tenho a pretensão de surpreender ninguém”.

Usina Pazza – Isto diz muito.
Leticia – É. É isto aí, então.

 
 
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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
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