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Reencontro

Carlos Rodrigo Schönardie
 

            Caminhando à beira mar, sentindo a brisa e admirando as ondas num amanhecer de domingo, redescobri minha essência. E percebi como é verdadeira a sentença que diz que ela nunca muda.

            Romântico, reflexivo, dramático, piegas.

            Lembrei-me da minha adolescência, do sonho de encontrar “a pessoa certa” e ser feliz para sempre: uma casa grande, com escadarias, largas janelas, móveis antigos, cachorros, gatos, um belo jardim. Comparei com o hoje: um apartamento, prático e moderno, num prédio seguro, com varanda e um belo quadro na parede da sala. A pessoa certa? Uma a cada dia.

            Não ao encanto, sim à praticidade.

            “The spell has been broken”. O encanto também foi quebrado para Madonna. E ela deixa clara sua melancolia, enquanto caminha à beira mar, no vídeo da canção The Power of Goodbye, de 1998.

            Solteiro, sim; sozinho, nunca.

            Eu havia acabado de sair de uma festa, naquele final de semana no litoral, e decidi ir para casa a pé, percorrendo a orla. Não sei se foi o mar, o amanhecer, o ar da praia... Aliás, não importa a causa. O importante foi o efeito: eu me reencontrei comigo mesmo.

            Ao pôr os pés para fora do inferninho onde dancei, embriaguei-me e flertei com almas tão perdidas quanto a minha, a primeira coisa que fiz foi olhar o céu – ainda escuro àquela hora – e procurar as estrelas que se mostravam por detrás das nuvens. Pensei em como seria bom ter alguém: não alguém qualquer, mas alguém que eu conhecesse, de quem soubesse os gostos, preferências, defeitos e qualidades; alguém com quem ir ao cinema e comer pipoca; alguém que conhecesse o motivo das minhas cicatrizes; alguém que eu conhecesse um sinal de nascença em alguma parte do corpo; alguém que tivesse me mostrado suas fotos de quando era bebê; alguém de quem eu tivesse a foto em minha carteira; alguém que conhecesse o meu perfume e que eu reconhecesse pelo perfume, também; alguém com quem fazer amor – e não sexo – naquele momento, na areia da praia.

            Piegas? Sim, minha essência.

            Perguntei-me de quem eram as bocas que beijei naquela festa. Quais eram as histórias dos corpos que toquei? Quais seriam os sonhos daquelas almas, os anseios daqueles corações? Um olhar insinuante, um sorriso disfarçado. Proximidade. Beijos. Respirações sôfregas. Mãos ansiosas. Bocas que eu nunca mais tocaria. Nomes que eu sequer sabia. Olhos que eu nunca mais encararia. Almas e corações que eu nunca conheceria. Atitudes imediatistas para suprir necessidades fisiológicas. Era o que eu havia desejado para minha vida?

            Melodramático? Sim, minha essência.

            O céu começava a clarear. Eu continuava caminhando e refletindo. No caminho, encontrei diversas pessoas que, como eu, voltavam da noite agitada do litoral para suas casas. Sozinhos, aos pares, em grupos. Teriam elas as mesmas reflexões que eu?

            Na praia, pescadores, casais, atletas matinais, solitários.

            Embalado pela brisa e pelo som do mar, eu me reencontrei comigo mesmo.

            No calçadão, deixei que meus sonhos soterrados respirassem. E me perguntei o que eu desejava (pelo menos, naquele momento). Queria alguém que cruzasse casualmente por mim. Alguém que, como eu, admirasse a magia de estar à beira mar e esperasse o amanhecer. Alguém que fitasse meus olhos e continuasse seu caminho, mas que, quando eu olhasse para trás, estivesse me olhando, também. E sorrisse. E parasse, metade hesitação, metade atrevimento. E que me conquistasse – e a quem eu conquistasse – com olhares e sorrisos. A quem eu perguntasse o nome e, em algumas semanas, desse um apelido carinhoso que seria só nosso. Alguém com quem viver “uma linda história de amor”.

            Romântico? Sim, minha essência.

            Amanheceu, e, às 7h da manhã, quando eu joguei meu corpo cansado à cama, uma imagem insistia em vir à minha mente igualmente cansada: a de um casal. Foi no meio da noite, na festa, que os vi. Eles estavam ao lado da pista e trocavam um beijo, um beijo ardente. Mas havia mais naquele ato: abraçados, unidos, colados, pareciam trocar um beijo apaixonado. Uma ponta de inveja novamente alfinetou meu coração. E eu me perguntei se eles, agora, depois da festa, tinham um ao outro.

            Amargurado? Talvez. Conseqüência.

            Então lembrei da letra de uma música da colombiana Shakira (sim, as cantoras me inspiram): Underneath your clothes, 2001, em que ela fala: “Quando os amigos se foram/ Quando a festa terminou/ Nós ainda pertencemos um ao outro”. Os amigos estão sempre ao nosso lado, claro, mas chega um momento em que eles vão viver suas vidas, um momento em que eles encontram suas caras-metades e em que temos que aprender a engolir nossos sapos sozinhos, a enfrentar nossos fantasmas com nossas próprias forças. As festas estão sempre acontecendo, divertidas, alegres, regadas a bebidas, cheias de possibilidades... mas, ao raiar do sol, elas acabam, e lá estamos nós, bêbados demais para pensar, com um vazio que, fingimos, não sabemos explicar, ou cheios de reflexões. Quando você tem Alguém (alguém, assim, com letra maiúscula, mesmo), entretanto, os amigos podem viver suas vidas, as festas podem acabar, mas você sempre terá aquela pessoa para chamar de sua. Não se sentirá à deriva, não se sentirá sem abrigo, não se sentirá inseguro.

            Nos minutos finais antes de adormecer, ainda refleti sobre como podemos mudar a superfície. A essência, no entanto, não muda. Podemos construir altos muros e pôr várias pás de terra, mas um dia o mar vem, nos alcança e revela nossa essência. Refleti que os sonhos podem mudar um pouco, mas que, no fundo, eles sempre serão os mesmos.

            Apesar das reflexões, não tive a menor dificuldade em dormir.

            Eu vinha entendendo que é preciso aprender a viver a vida que temos. Afinal, o dia seguinte poderia me trazer uma surpresa... no encanto de uma troca de olhares, numa caminhada à beira-mar, ou na praticidade de uma festa cheia de possibilidades.

 

 
 
 
 
 

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O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
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em 2007

 

 
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