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Reportagem
 
Boom musical do Leste Europeu em Buenos Aires
Deise Martins, de Buenos Aires
 

     O furor pelos sons balcânicos, a partir da febre despertada pelos filmes de Emir Kusturica, e as freqüentes visitas de seu ex-colega musical, Goran Bregovic, à Argentina, geraram uma forte influência e, até pode-se dizer, uma apropriação de ritmos, pelos músicos e pelo público local. Isto acabou se traduzindo numa espécie de movimento musical, tão desordenado, caótico e vital como os ritmos do Leste Europeu.

     O fenômeno surge a partir de uma série de orquestras com o espírito cigano de Kusturica. Estas, influenciadas pelos sons balcânicos ou aproximando-se da recuperação do klezmer, começaram a aparecer, com freqüência, em ciclos musicais, concertos em teatros, shows em festas particulares ou performances de rua. É o caso dos rosarinos Una Cimarrona, da Orquesta Kef e do grupo Tandarika Klezmer.

     Somadas a este fenômeno, aparecem as festas itinerantes, como Bubamara – em que soam os temas dos filmes de Kusturica “El Tiempo de los Gitanos”, “Gato Negro y Gato Blanco” e “Underground” – a crescente popularidade no circuito independente de bandas como Me Darás Mil Hijos, e a proximidade direta dos pais do fenômeno balcânico com a Argentina.

     Kusturica e sua banda The No Smoking Orchestra têm uma conexão local: um amigo chamado Gabriel Chepenekas. Isto os levou a criar um vínculo afetivo especial com Buenos Aires. Chepenekas presenteou Kusturica, em uma das visitas do cineasta a Buenos Aires, com uma camiseta do Club Atlético Excursionistas, um clube de futebol que joga na Quarta Divisão do campeonato argentino. Kusturica vestiu essa mesma camiseta nos shows que fez em 2001 no país, ano em que o clube havia sido campeão na sua categoria. Chepenekas também viajou à Sérvia, há dois anos, para ver a filmagem do último filme de Kusturica, quando os laços entre eles se estreitaram.

     O carinho portenho foi tanto que, agora, a banda cigana de Kusturica acaba de lançar, em nível mundial, seu esperado álbum ao vivo “Live in Buenos Aires”, gravado em 3 de março de 2005, no estádio Luna Park.

     Febre balcânica

     Além dos dados anedóticos do fenômeno, a música balcânica está começando a produzir seus frutos locais. Uma porção deles começa a se instalar fora do circuito convencional, como a Orquestra Kef, animadora de festas da comunidade judaica. Esta orquestra começou a realizar apresentações em teatros e já gravou seu primeiro disco. A Kef tem um estilo próprio, com arranjos novos, com base no repertório tradicional da cultura judaica e na força dos seus instrumentos de sopro, ao mesmo tempo em que seus integrantes estão influenciados por outros sons que tem a ver com a juventude.

     A idéia inicial da Orquesta Kef era reavivar o espírito festivo da comunidade judaica, na Argentina. Em 2001, não havia banda de música judaica que tocasse ao vivo, com ritmo para dançar. Na Kef, a vivacidade festiva da música judaica se mistura com outros ritmos provenientes da Europa do Leste, como polcas, canções sefarditas, sons mouriscos e composições de música jazzística.

     Nessa abertura que mobiliza a banda, aparece claramente a influência de Kusturica, que, há pouco tempo, voltou à Argentina, para filmar um documentário sobre a vida de Maradona. Um dos diretores da Orquesta Kef, Gustavo Mahadev, está ligado ao ramo do cinema, como arranjador, e sua admiração por Kusturica, sem dúvida, faz com que o grupo esteja sintonizado com o fenômeno.

     Outra orquestra que aparece, na cena musical, é a banda e fanfarra ambulante rosarina Una Cimarrona, composta por dez músicos que tocam instrumentos de sopro e um baterista. Mistura de salsa, mambo, polca, reggae e funk, Una Cimarrona é uma experiência única. Aqueles que puderam ver suas performances de rua, no calçadão principal de Rosário, ou sobreviveram a alguns de seus explosivos concertos ao vivo em ciclos musicais, dizem que o grupo anda de lá pra cá, como os ciganos, e vive em comunidade. É difícil encontrar seu rastro, mas sua fama vai crescendo de boca em boca.

     O grupo Tandarika Klezmer, dirigido pelo clarinetista Miguel Magud, possui este mesmo espírito itinerante. A banda também foi contaminada pela febre balcânica. A proposta tem como centro o klezmer e a música dos Bálcãs. A idéia, porém, não é fazer uma banda para concertos, mas algo com o espírito itinerante das antigas orquestras klezmer, que iam de povoado em povoado, levando sua música alegre.

     Nesse sentido, a orquestra se sente parte do fenômeno local. Apresenta as músicas das festas que se vê nos filmes de Kusturica, oferece um momento para dançar e cria um espaço vital. Pode-se dizer que não é exatamente um fenômeno articulado, mas trata-se de algo espontâneo, como a música cigana.

     Quem é Emir Kusturica?
     Sua história e filmografia

Diretor de cinema bósnio, Emir Kusturica nasceu em 1954 em Sarajevo (Bósnia-Herzegovina, antiga Iugoslávia). Estudou na escola de cinema de Praga, a FAMU, onde rodou o filme “Guernica”, pelo qual, em 1978, recebeu seu primeiro prêmio no Festival de Cinema de Karlovy Vary. Em 1979, voltou para a Iugoslávia e trabalhou para a televisão de Sarajevo. Depois de realizar vários programas televisivos, dirigiu seu primeiro filme, “Te Acuerdas de Dolly Bell?” (1981), que obteve o Leão de
Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Obteve grande êxito com a sátira “Papá Está en Viaje de Negócios” (1984), que reflete a era do comunismo na Iugoslávia, na década de 1950, através do olhar de um jovem de 16 anos. Por este trabalho, foi indicado ao Oscar, na categoria de melhor filme de língua não-inglesa e premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes. A comédia dramática “El Tiempo de los Gitanos” (1989) conta a história de um jovem cigano romeno, que abandona sua pátria sérvia e se incorpora a uma gangue de ladrões na Itália. Por este filme, ganhou, em Cannes, o prêmio de melhor direção. No início da década de 1990, Kusturica mudou-se para os Estados Unidos, onde produziu o filme “Arizona Dream” (1992).

     Por causa dos elementos surrealistas e fantásticos, além da mistura de realidade e ficção, o estilo de Kusturica pode ser classificado como realismo mágico, em referência à corrente literária latino-americana. Em “Underground” (1995), uma epopéia de três horas de duração, surge o enfrentamento, com olhar crítico, do passado sérvio, desde a II Guerra Mundial até a Guerra Civil, na antiga Iugoslávia. Em função da clara posição política de Kusturica, no filme, o diretor ganhou muitos inimigos, em seu país. O filme foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes. Desde então, o cineasta vive na França, onde, em 1997, rodou “Gato Negro y Gato Blanco”, já com trilha sonora de sua própria banda, The No Smoking Orchestra. Em 2000, debutou como ator no filme “La Viuda de Saint-Pierre”, do realizador francês Patrice Leconte. Em 2001, produziu “Super 8 Stories” e, em 2004, seu filme mais recente, “La Vida es un Milagro”.


Filmes de destaque na carreira de Kusturica: “El Tiempo de los Gitanos” (1989), “Arizona Dream” (1992), “Underground” (1995), “Gato Negro y Gato Blanco” (1997) e “La Vida es um Milagro” (2004).



     Goran Bregovic e sua banda de casamentos e funerais

Bregovic nasceu em 1950, em Sarajevo (Bósnia-Herzegovina), filho de mãe ortodoxa sérvia e pai católico croata. Ao casar com uma bósnia muçulmana, o artista teve sua vida ainda mais desafiada. Músico prodígio, com apenas 16 anos, Bregovic fundou um grupo de rock e começou sua carreira de artista.

     A música de Goran Bregovic é tão intensa e explosiva quanto a situação que vivenciou, sempre na região dos Bálcãs. Suas composições estão inspiradas no que há de mais primitivo do folclore balcânico, dotado de uma perspectiva contemporânea, fruto de seu passado como integrante de um famoso

grupo de rock iugoslavo, o Bijelo Dugme (os Botões Brancos), na década de 1970.

     Já naquela época, Bregovic conheceu Emir Kusturica, que, então, começava sua carreira como cineasta e tocava baixo em um grupo punk. Nasceu assim a amizade entre eles, que fez com que passassem a compartilhar festas e o amor pelo rock. Em seguida, coincidindo com o auge da carreira de Goran, Kusturica partiu para a Tchecoslováquia, com o objetivo de continuar seus estudos, na prestigiada Escola de Praga. Esta mudança levou seus caminhos a se bifurcarem.

     No final da década de 1980, Goran Bregovic dissolveu seu famoso grupo, com o qual havia vendido milhões de discos em seu país. Kusturica, então, convidou-o, para compor a música de seu filme “El Tiempo de los Gitanos”. Este foi o momento em que Bregovic se encontrou com suas raízes balcânicas e começou a explorar a música dos zíngaros. Seguiu-se, nos anos 1990, uma frutífera colaboração entre ambos, com o filme “Arizona Dream” (com participação do roqueiro norte-americano Iggy Pop) e “Underground” (no qual aparece a cantora cabo-verdiana Cesária Évora).

     A música de Goran Bregovic foi, por um período, insubstituível, no peculiar universo de Emir Kusturica, da mesma maneira que também são inseparáveis Nino Rota de Federico Fellini, Ennio Morricone de Sergio Leone ou Michael Nyman de Peter Greenaway.

     Atualmente, Goran Bregovic vive em Paris e trabalha em Belgrado, onde tem seu estúdio de gravação. Além de Iggy Pop e Cesária Évora, já trabalharam com ele o roqueiro norte-americano Scott Walker, a cantora israelense Ofra Haza e os atores Isabelle Adjani e Johnny Depp.

 
 
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REFLEXÕES...

O segredo de uma boa velhice não é outra coisa que um pacto honrado com a
solidão.
Gabriel García Márquez
escritor colombiano
que completa 80 anos
em 2007

 

 
Pazza Comunicazione, 2006
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